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Heróis anônimos da saúde*

Principal canal de dispensação de medicamentos no Brasil, as farmácias são fundamentais para o sucesso dos tratamentos prescritos aos pacientes por seus médicos. São também essenciais nas indicações para quem precisa de medicamentos isentos de prescrição, aqueles indicados para problemas de saúde menores que não requeiram uma consulta médica, como resfriados e cólicas menstruais corriqueiras. Toda essa importância é elevada exponencialmente diante da precariedade da infraestrutura da rede de saúde pública brasileira, que chega a ser inexistente em muitas cidades pequenas. Nas regiões mais longínquas dos centros urbanos, as farmácias muitas vezes são o único elo das populações locais com algum atendimento na área da saúde.

Mas uma farmácia não é nada sem pessoas atrás do balcão, especialmente os balconistas, os que geralmente estão na linha de frente e são o “cartão de visitas” de todo estabelecimento que preze por ter um atendimento eficiente. Diferentemente de muitos outros setores nos quais os balconistas também são peças-chave para a excelência no relacionamento entre empresa e cliente, no varejo farmacêutico eles vão além disso: podem amenizar e até curar, e com muito conhecimento especializado e peculiar ao exercício dessa função, as mais variadas dores que acometem os seres humanos.

Esses heróis anônimos da saúde fazem isso de diversas maneiras. A primeira, irritante e engraçada ao mesmo tempo, é decifrando as receitas médicas. Sou médico e digo isso com propriedade. É preciso muito conhecimento para entender o que boa parte da classe médica prescreve. Além de descobrir o nome do medicamento indicado, eles também auxiliam a decifrar qual a dosagem e o intervalo de tempo em que cada uma deve ser ministrada. Na seara dos isentos de prescrição, são eles que dão as orientações inestimáveis das melhores soluções para cada problema apresentado por aqueles que sofrem alguma dor.

Também são eles que auxiliam quem simplesmente quer um complexo vitamínico a fim de melhorar a imunidade, um shampoo ou um creme antirrugas. Quase 40% dos produtos comercializados em farmácias não são medicamentos e sim produtos de beleza e higiene pessoal, entre os principais; itens também fundamentais para o bem-estar físico, emocional e mental do ser humano.

Não se sabe ao certo o número de profissionais empregados atrás dos balcões das mais de 74.000 mil farmácias em operação no Brasil. Mas eles são tão importantes para os brasileiros que as indústrias farmacêuticas e fabricantes de produtos destinados à higiene e bem-estar os consideram vitais para o bom desenvolvimento de seus negócios. Assim como os laboratórios investem muito em representantes que divulgam seus medicamentos para médicos, destinam muitos recursos para que força de vendas idêntica visite cada farmácia brasileira a fim de levar as mesmas informações a farmacêuticos e balconistas.  É no ponto de venda que as indústrias verificam ainda se as suas estratégias comerciais estão dando resultados ou não, se há demanda por seus produtos e se a distribuição e estoques estão afinados com as necessidades da população.

Após mais de 30 anos atuando na indústria farmacêutica no Brasil e nos Estados Unidos, posso afirmar sem medo de errar que toda a tecnologia disponível hoje não substitui o sucesso obtido por qualquer laboratório no dia a dia do relacionamento com os profissionais das farmácias, bem como nenhuma consulta ao “Dr. Google”, essa recente moda da população de se informar nos sites de busca sobre os problemas de saúde, que tem vantagens e desvantagens – mais isso é assunto pra outro momento –, substituirá a relação do balconista com cada cidadão que precisa de seus cuidados dentro de uma farmácia.

*Artigo publicado na edição de outubro de 2017 da revista ABCFARMA – http://www.abcfarma.org.br/ 

Medicina Personalizada e eficácia dos medicamentos

Quem nunca ouviu a frase “esse medicamento não funciona pra mim”? Creio que todo mundo e no campo da Medicina, acredite, ouve-se com uma constância preocupante. Afinal, muitas vidas dependem de medicamentos. E eles não fazem efeito em cerca de um terço dos pacientes, conforme comprovam várias pesquisas. Quando falamos de doenças crônicas e incuráveis, esse dado preocupa ainda mais.

Por que um medicamento não funciona? Cada paciente é único, com seu próprio DNA, não existem dois pacientes com a mesma identidade genética. Essa é a principal razão porque nem todos os pacientes respondem da mesma maneira ao tratamento padrão, desenvolvido pela indústria farmacêutica e baseado na média de respostas da população aos medicamentos.

O conceito de que “uma mesma dose serve para todos” é completamente errado. Daí a importância da Medicina Personalizada, onde cada paciente recebe terapia baseada no seu perfil genético, ou seja, o tratamento é individualizado. Isso tem se tornado cada vez mais possível por causa da farmacogenômica, que estuda como as variações genéticas afetam a resposta das pessoas aos medicamentos.

A grande maioria dos medicamentos é metabolizada no fígado. O mecanismo primário da metabolização hepática é o sistema enzimático do citocromo P450, responsável pelo efeito no organismo de mais de 80% dos medicamentos mais utilizados atualmente. O teste farmacogenético avalia as enzimas hepáticas, determinando a sensibilidade de cada paciente aos diferentes tipos de medicamentos. O teste diz como o paciente vai responder, evitando assim toxicidade, por acumulo da substância no organismo, ou falta de eficácia, situações que colocam a vida em sério risco.

Todas as enzimas, incluindo as enzimas da família do Citocromo P450, são produzidas por genes específicos. O gene contém o código do DNA para a construção da enzima. É comum uma enzima sofrer alteração. Isso é causado pela troca de um nucleotídeo do código. Essa alteração é chamada de SNP (Single Nucleotideo Polimorfismo). Um gene (também chamado de alelo) com um SNP é chamado de gene variante ou alelo variante.

Muitas pessoas possuem um gene variante que afeta a função de uma ou mais enzimas que metabolizam medicamentos. A maioria das variantes causa perda de função enzimática. Pacientes que possuem genes variantes são metabolizadores lentos ou intermediários ou ultrarrápidos. As pessoas que metabolizam as substâncias muito rapidamente apresentam perda quase total de eficácia do medicamento. Já as que metabolizam lentamente acumulam a substância na corrente sanguínea, causando reações adversas que podem até levar a morte. Nos intermediários, a eficácia também está comprometida.

Pacientes tratados com vários medicamentos ao mesmo tempo também possuem um risco elevado de reações adversas e apresentam chances maiores de uma ou mais substâncias não serem metabolizadas corretamente. Aproximadamente 5% das pessoas que sofrem reações adversas morrem em decorrência do problema, sendo que 49,5% das mortes e 61% das internações são observadas em pessoas com mais de 60 anos, exatamente a faixa etária em que é mais comum o uso de vários medicamentos simultaneamente.

Qualquer paciente pode se beneficiar do teste farmacogenético. Assim como o conhecimento do tipo sanguíneo pode salvar vidas, o conhecimento genético pode ser crucial em uma emergência. Ele deve ser absolutamente indicado para pacientes com câncer, alterações psiquiátricas, alterações de coagulação, e outras condições onde a estratégia de “tentativa e erro” seja de alto risco.

Vejamos o caso do clopidogrel (Plavix), por exemplo, um dos medicamentos mais indicados para prevenir a formação de coágulos, que causam infartos e derrames. Essa substância faz parte da categoria chamada de pró-fármaco, ou pró-droga, isto é, de medicamentos que são administrados na forma inativa. Para ser ativada no organismo, a substância precisa do perfeito funcionamento das enzimas, que farão esse papel para que o medicamento faça efeito.

Esse problema é tão sério que o FDA (Food and Drug Administration), agência norte-americana que regula o setor de medicamentos, reconhece os efeitos das variações genéticas e desde março de 2010 exige que as bulas de clopidogrel contenham mensagem de cuidado a respeito de sua eficácia em pacientes com variantes.

Cabe ressaltar aqui que, além de salvar vidas, os testes farmacogenéticos são realizados somente uma vez na vida e ajudam a individualizar qualquer tipo de tratamento com medicamentos, evitando reações adversas e maximizando a eficácia.

 

 

Medicina Personalizada: o futuro cada vez mais presente

 

Assim como muitos médicos e executivos das empresas especializadas em saúde, costumo dizer que a Medicina Personalizada é a Medicina do futuro. Ela está lá adiante por vários aspectos, que trataremos a seguir, mas também já está bastante disponível para os pacientes do presente. É crescente o rol de exames de diagnóstico, medicamentos, procedimentos e um enorme aparato de produtos e serviços já disponíveis para atender diversas necessidades humanas individualmente, de acordo com a formação genética de um.

Cabe ressaltar, antes de prosseguir, que Medicina Personalizada é aquela que não se orienta pela média. Até a revolução genômica, decorrente do sequenciamento completo do genoma humano, cientistas e médicos estavam mais preocupados em descobrir soluções para a esmagadora maioria dos problemas baseados na resposta média da população. Não consideravam as variantes individuais que influenciam de sobremaneira a propensão de cada um a doenças, bem como a resposta a tratamentos.

A Medicina Personalizada considera cada pessoa única e a trata como tal, ao analisar o seu código genético, também único, uma vez que todo ser humano tem uma identidade genética própria, que não se iguala a de nenhum outro. Nessa investigação do DNA de cada um, é possível detectar o grau de risco de predisposição a doenças, fundamental na esfera da prevenção; e fazer diagnóstico precoce, o que possibilita tratamentos mais rápidos e economia de recursos públicos ou privados nesse processo. Melhor, garante qualidade de vida aos pacientes.

É possível, ainda, confirmar diagnósticos com precisão; e determinar o medicamento certo e na dose certa individualmente, a partir dos avanços da farmacogenômica, a seara que cuida da terapia medicamentosa personalizada.  A crescente variedade de instrumentos que possibilitam a prática da Medicina Personalizada é resultado de muito investimento, sem o qual não se avança em área alguma, também crescente no setor.

Somente na área de biotecnologia, esse elo fundamental da Medicina Personalizada do futuro e que já é bastante presente também, um estudo da Tufts University, de Boston (EUA), mostra que os investimentos nessa área aumentaram quase 90%, num prazo de cinco anos, entre 2010 e 2015. A pesquisa foi realizada com 16 empresas que atuam com biofármacos e buscam forte posicionamento em farmacogenômica.

São as maiores desse mercado e respondem por parcela significativa, mas o estudo não contempla o cenário completo, o que nos dá a certeza de que os investimentos são muito maiores. Nessa conta não estão, por exemplo, os aportes das empresas de diagnósticos, sejam fabricantes de equipamentos ou prestadoras de serviços de exames laboratoriais. Essas também investem cada vez mais em pesquisa e desenvolvimento com foco na Medicina Personalizada porque a demanda é crescente. É essa procura maior que torna as novas tecnologias cada vez mais acessíveis – regra em qualquer mercado.

O setor de produtos biotecnológicos movimenta mais de US$ 160 bilhões no mundo. No Brasil, em torno de US$ 6 bilhões. E tem avançado significativamente em participação no total do bolo do setor farmacêutico, de mais de US$ 1 trilhão em vendas de medicamentos anuais, em âmbito mundial. Ganha participação e tende a ganhar ainda mais porque é eficaz.

Quando se descobriu mais sobre o genoma humano e a possibilidade de personalizar tratamentos, investiu-se muito em pesquisas especialmente para tratar alguns tipos de câncer e a ciência evoluiu substancialmente nessa área, com as terapias-alvo, que praticamente já dominam esse setor.

A comprovação dos bons resultados dados a cada passo no tratamento de câncer colocou mais empresas e mais cientistas para trabalhar na busca por resultados tão eficientes no combate a outras doenças, que também castigam muito o ser humano e as finanças públicas. Hoje, a Medicina já é bastante personalizada também na neuropsiquiatria, cardiologia, doenças do sistema imunológico, metabólicas, infecciosas e inflamatórias.

Ela é do futuro porque há muito que se investir ainda para abranger o extenso leque de velhos e novos problemas que surgem a cada dia e afetam o ser humano. Há muito o quê se fazer ainda para barateá-la e tornar o que já existe mais acessível. Mas o que já está desenvolvido também não está mais tão caro, como provam os diversos laboratórios especializados em testes genéticos a preços mais populares que vêm sendo criados anualmente no Brasil. Há poucos anos, eles não existiam e muitos testes na área genética só eram realizados em laboratórios no exterior.